Flavia,
Você sabe querida, que nunca dei muita importância a comemorações de “dia disso e dia daquilo”, incluindo o Dia das Mães, porque como eu lhe dizia filha, dia das mães são todos os dias, e você com sua voz mimosa de menina sapeca respondia. -
Eu sei mamãe, mas olha o que preparei pra você na minha escola; foi minha professora quem me ajudou a fazer, mas o que aí está escrito foi idéia "minha.”. E você frisava o “minha”. Ainda tenho filha, guardados estes tesouros que ganhei de você: - um pano de prato com o desenho de suas mãozinhas pintadas nele, um poema escrito por você e dedicado a mim, uma flor de papel dobrada, tipo origami e depois de desdobrada, a frase que me dizia: -
Mamãe, você é a melhor mãe do mundo, e eu te amo! Tenho aqui filha, impressa, tatuada na minha memória sua imagem caminhando em minha direção com os bracinhos abertos, e eu, pronta para o seu abraço, me deliciava com as demonstrações de seu amor por mim. A saudade desse tempo querida, me consome, e enquanto escrevo esta carta que vou ler pra você neste domingo, tenho os olhos cheios dágua. Estou chorando de saudades de você. E hoje esta saudade parece ser maior, se é possível ser, por causa das lembranças que o Dia das Mães sempre me traz.
São 10 anos filha, que vejo você aí parada, alheia a tudo, inconsciente e imóvel enquanto a vida passa e continua em movimento. Tantas coisas você perdeu nestes 10 anos filha, um tempo que não dá mais para recuperar. Resta-me continuar na luta para ver seus direitos respeitados. Tivéssemos uma justiça mais justa, há muito os culpados pelo acidente que a deixou assim, já teriam sido condenados a lhe pagar uma indenização que me permitisse cuidar melhor de você. Fossem os responsáveis pelo acidente que a deixou assim pessoas e empresas menos preocupados com dinheiro e mais com vidas humanas, o estrago que fizeram em sua vida não seria corrigido, mas você teria hoje um pouco mais de qualidade de vida. Mas sabe filha, tenho usado seu blog para alertar as pessoas para o perigo dos ralos de piscinas, e é como se você aí, mesmo em silêncio, me pedisse para fazer isto. E protesto filha, de forma insistente e ininterrupta, protesto contra a lentidão da justiça em fazer valer os seus direitos. Acho que com isto minha Princesa, estou exercendo a nossa cidadania, a minha que além de mãe, sou responsável por você, e a sua cidadania que lhe tiraram o direito de exercer.
Mas olha filha, não quero só falar da tristeza que tem sido conviver com seu estado de coma, seu silêncio, sua imobilidade, com a perda da sua capacidade para a vida, e de me demonstrar o seu amor, da forma que antes você fazia. Não quero falar dos afetos que perdemos, das pessoas queridas que se afastaram, porque sabe Flavia, essas pessoas não fazem isto por mal, se distanciam porque talvez não suportem mais ver o seu sofrimento e não sabendo o que fazer ou dizer, se afastam para ficar longe de suas dores. Aprendi querida, que a dor alheia a longo prazo é insuportável para o ser humano. E além disso, filha, aprendi também que as pessoas ficam em nossas vidas pelo tempo que é necessário que fiquem. E depois podem partir para ficar próximas a outras pessoas que talvez mais do que nós, tenham necessidade da presença delas. Essas pessoas se afastam filha, porque já cumpriram sua missão conosco. Mas a vida é renovação querida e novos amigos nos chegaram através de seu blog. São nossos amigos virtuais Flavia, e são assim chamados porque não estão à nossa frente, não nos tocam fisicamente, mas tocam profundamente a nossa alma, o nosso coração, e com eles podemos rir e chorar de emoção pelo que nos fazem e nos dizem através de seu blog querida, que tem facilitado nosso contato com o mundo.
São muitos nossos novos amigos Flavia, tantos que não vai dar para dizer o nome de todos eles aqui. Mas vou falar daqueles amigos com os quais nosso contato é maior. Tem o
António, lá de Portugal que com freqüência lhe envia aquelas lindas mensagens de voz que coloco pra você ouvir. É adorável o nosso amigo António, e Fernanda, uma de suas fisioterapeutas diz que ele tem voz de veludo. E cá entre nós, filha, ele tem mesmo uma voz de veludo. Sei que você gosta de ouvir a voz de António pela expressão de seu rosto que aprendi a interpretar. Na verdade filha, o contato com pessoas sensíveis como nosso amigo António é uma benção e devemos ser gratas à vida por isto.
Outra amiga muito querida é a
Isabel Filipe, que fez maravilhas com algumas de suas fotos, e as pessoas se encantam com a beleza das imagens trabalhadas por Isabel. Temos também a amizade de nosso amigo autor do blog
Adesenhar, um querido e que é um craque na arte dos desenhos, A
Maria Clarinda, sempre com um comentário doce, o
Raul, que além do link, divulga seu blog numas letrinhas dançantes, o
Beezz, que tem sido muito presente, O
David que por um bom tempo me ajudou muito a divulgar seu blog pelo mundo, o
Bóris que escreve versos que me fazem rir e chorar.
Nuno, o fotógrafo que presenteou você com aquelas fotos lindas da Borboleta Monarca, nascendo. O Nuno disse que o nascimento da borboleta representava a esperança de vê-la sair de seu estado de coma. Claro que chorei de emoção pelo gesto e pelas palavras do Nuno. A
Lena Gal que lhe enviou também de presente a serigrafia “Fantasia”, tendo como modelo a filha dela quando menina e que junto com as fotos do Nuno enfeitam seu quarto. A
Lídia que está sempre pronta a colaborar,
Brancamar, sempre gentil e delicada,
Elvira, também uma querida, a
Fatyly que embora tenha quase a minha idade já é avó, e as netas a chamam de Bó, acredita filha? E tem também a
Rosário, que tem uma neta que se chama Catarina, mas ela chama a neta de Princesa, assim como eu chamo você: Princesa. Estes amigos você sabe Flavia, são todos de Portugal, e estes são só alguns, como eu já disse, pois há muitos outros por lá. A
Luci Peter, uma brasileira que mora nos Estados Unidos, também ficou nossa amiga. Tem o
Aleksander, da Colômbia, a
Campanita da Espanha, a
Graciela da Argentina. E aqui no Brasil? Também fizemos novos amigos virtuais por aqui. Por exemplo, a
Saramar que escreve bonito demais, a
Maristela de Porto Alegre, a
Maurette do Rio de Janeiro, a
Eliana de Mogi Guaçu, a
Ray do Rio de Janeiro e que é mãe do Filipe, um rapaz autista e que é artista, imagine você que lindo, a
Leila Jalul que escreve umas crônicas de arrepiar, e como você bem sabe, entre nossos novos amigos, temos até um juiz o
Carlos Zamith, lá de Manaus que já dedicou à você uma música do Andrea Bocelli. "Because We Believe" que nós continuamos a ouvir sem nunca nos cansar. O Juiz Carlos Zamith é também um querido. Ah! como seria tão bom se fosse ele a julgar nosso recurso lá em Brasília, filha, pois Carlos Zamith tem o que falta a muitos juizes: Capacidade de se emocionar com o sofrimento alheio, ou seja, ele tem sensibilidade e humanidade. Não posso deixar de lembrá-la da
Anelize, de Curitiba, uma menina linda, quase da sua idade, e com uma sensibilidade que me cativou. Você adoraria tê-la como amiga.
Pois é filha, temos muitos amigos conseguidos através de seu blog. Estes que aqui mencionei e muitos outros que mesmo sem deixar comentários, passam por seu blog para saber notícias suas. Você Princesa, reuniu muitas pessoas em torno de sua causa, que por ser justa, nem precisou de sua voz para se fazer ouvir por pessoas que assim como eu, também ficam indignadas com a negligência, a impunidade e o desrespeito aos direitos humanos. E a voz desses amigos têm se juntado à nossa e embora a justiça ainda não nos tenha dado ouvidos, com tantas vozes somadas às nossas, a justiça haverá de nos ouvir, Flavia. O seu silêncio filha, tem ecoado alto e atravessado fronteiras. Esperemos que ele seja ouvido aqui no Brasil – em Brasília e que sem mais demora se faça justiça pra você. Vamos confiar que isto aconteça antes do próximo DIA DAS MÃES.
Um beijo especial de sua mãe neste dia que você tanto gostava de festejar. Receba também um abraço de seu irmão, um filho também muito querido para mim. Amo muito vocês dois.
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A todos que lêem o blog de Flavia, o meu muito obrigada e o meu abraço.
Até o próximo post.